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Alfredo Sirkis - RJ
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Os Carbonários, Pos-prefácio de 1998
Nova introdução de Os Carbonários, publicada em 1998, na 14ª edição, com uma rediscussão do pensamento político do autor e uma revisita à epoca dos fatos e àquela da elaboração e lançamento do livro.

Alfredo Sirkis

Dezoito anos após a publicação de Os Carbonários e trinta do rebelde ano de 1968, reli minhas memórias da guerrilha perdida revisitando meus “anos de chumbo”, para poder prefaciar esta nova edição. Quando escrevia o livro, em Lisboa, Paris, Foz do Arelho, nos últimos meses dos nove anos de exílio e depois, de volta ao Rio, com a anistia, as cores, cheiros e sentimentos eram muito presentes, candentes. Rever os locais onde os fatos ocorreram --o “aparelho” da rua Tacaratu, o Colégio de Aplicação, a avenida Rio Branco-- me despertava intensas emoções. Hoje, 68 e os anos de chumbo que a ele sucederam são como cenas de um filme antigo, histórias desbotadas, quase implausíveis, conquanto deveras acontecidas àquela outra pessoa que fui. Sinto-me a muitos anos-luz do guerrilheiro Felipe com seus 19 anos e sua intrincada mescla de revolta e pulsão de ser herói, viver a aventura da nossa geração, que depois, como disse Alex Polari, se cortou com cacos de sonho. Não me desconforta esse passado, também não me enaltece. Quando os jornalistas, pela milésima vez, fazem aquela pergunta, retruco-lhes o que virou uma frase feita, mas não deixa de conter a minha verdade: de tudo aquilo não me orgulho nem me envergonho. Alguns de nós pouco mudaram, a não ser fisicamente, é claro. Orgulham-se. Para eles a referência aos anos rebeldes continua o feito primordial de suas vidas. Outros, pelo contrário, se envergonham. Preferem que se esqueça que alguma vez fizeram parte daquele turbilhão libertário em revolta contra o regime ditatorial, mas, não sem ambigüidade, teorizando a ditadura do proletariado. Constrangem-se em recordar de ter alguma vez acreditado, piamente, naqueles dogmas semi-religiosos de uma concepção de mundo que desmoronou com o muro de Berlim, e da qual restam apenas alguns bastiões residuais.

Não somos a primeira nem a última geração à qual a história pregou uma peça desconcertante. O fato (para mim) surpreendente da última década não foi tanto o desmoronamento do chamado “socialismo real”, mas a sua incapacidade de gestar algo mais do que um capitalismo atrasado e regressivo, com suas pestes chauvinistas e racistas, seu banditismo generalizado e sua sistemática destruição da única coisa boa que havia naqueles regimes: certa proteção social aos desvalidos. O fracasso de Gorbachev --é bem verdade bastante ajudado por George Bush e o FMI-- mostrou que a transição do comunismo para o socialismo democrático simplesmente não aconteceu. O regime criado por Lenin passou, diretamente e sem escalas da ditadura da nomenclatura, para o capitalismo selvagem, muitas vezes conservando os mesmos personagens. Sobrou a social-democracia européia, que termina cabendo naquela definição de Winston Churchill a respeito da democracia representativa: o pior dos regimes com exceção de todos os outros. Mas que sina a nossa! Do lado de cá, a crise da social-democracia nos surpreendeu justamente quando estávamos nos transformando em social-democratas... Apenas descobríamos suas virtudes quando, nos anos 80, ela e o walfare state entraram em crise, recuando, nem sempre ordenadamente, diante da triunfante hegemonia neoliberal. Deixaram caídos no terreno vítimas ilustres como Felipe González, François Mitterand, Carlos Andrés Peres, irresistivelmente atraídos pelo receituário neoliberal e depois engolidos. Eram tempos intelectualmente difíceis, ingratos. Temi um dia morrer, acordar no purgatório e deparar com São Pedro, dedo em riste bradando: “Penitenciai-vos, incréus! Roberto Campos tinha razão.”

Mas a história --ah! a história, essa tinhosa-- não parou por aí. Será que alguma pessoa com a cabeça e o coração no lugar pode considerar o apogeu da aventura humana, como queria Francis Fukayama, o “fim da história” , esse cassino global com um trilhão e meio de dólares girando, dia a dia, pelo mundo em nanossegundos, numa especulação desbragada, capaz de desestabilizar, em poucas horas, nações inteiras, condenando milhões ao desemprego e mantendo em todo o mundo um clima permanente de insegurança? Como no auge da guerra fria e do medo de uma guerra nuclear, tememos o dia de amanhã. Não mais tanto aqueles sinistros cogumelos atômicos, mas receios mais prosaicos, tipo ficar sem trabalho, descobrir-se obsoleto, não conseguir garantir um futuro melhor para os filhos. Mas uma social-democracia renovada, esverdeada, ajustada à globalização –que, ao contrário do neoliberalismo, é irreversível -- está em gestação, nas experiências recentes da Itália, França, Holanda, Inglaterra e, em breve, Alemanha. Os cinco grandes desafios são: 1) fazer com que a política recupere seu espaço perdido diante da finança, conseguir instituir mecanismos supranacionais de controle dos movimentos de capitais especulativos; 2) gerar empregos e novas modalidades de walfare e diminuir as desigualdades, que crescem de forma exponencial; 3) fazer funcionar a democracia combinando a representativa –desgastada em todo mundo-- com a chamada democracia direta; 4) melhorar a educação, não só como preparação para o mercado de trabalho, mas para a cidadania e o crescimento espiritual; 5) responder ao desfio ecológico do global ao local, do local ao global. E fica em aberto um debate sobre o sentido da utopia: é um sonho necessário para fazer com que o produto final do embate histórico se aproxime, ao máximo, da meta incansável? Ou é uma quimera perigosa, que leva a morticínios, ditaduras e amargas decepções, cabendo simplesmente a intervenção em coisas pequenas mas significativas do dia a dia? Ambas as sensibilidades existem e polemizam incessantemente, em vários continentes, no interior da família política a que hoje pertenço, os verdes.

Que coisa surrealista essa de descobrir na leitura de Eric Hobsbaum que nós, os irrequietos baby boomers, nos revoltamos, por vezes de armas na mão, contra o que nos parecia uma insuportável opressão capitalista, quando era, precisamente, o auge dos “trinta anos gloriosos”, o ápice do Estado do Bem Estar com a Great Society de Lyndon Johnson, nos EUA, da Quinta República de Charles de Gaulle, na França, do trabalhismo de Harold Wilson, na Inglaterra, e da social-democracia de Willy Brandt, na Alemanha. É bem verdade que esse Estado de assistência, bem-estar e democracia, com suas benesses, limitava-se essencialmente ao norte do planeta. Aqui, no sul, o buraco era mais embaixo, e a arrogância imperial que promovia a guerra do Vietnã nos tratava, povos ao sul do Rio Grande, como um quintal a ser tocado com mão de ferro por capatazes fardados. Isso sem dúvida ajudou a escamotear, entre nós, aquele momento da vida dos povos do hemisfério norte, quando eram felizes mas não sabiam.

Junto com os militares, nossos inimigos de então, compartilhamos, na chamada guerra fria, uma dessas ilusões da história que poderiam ser inventariadas na Marcha da Insensatez, de Barbara Tuckman. Uns e outros pensávamos travar a guerra do Vietnã pelas ruas de algumas cidades brasileiras, no Vale da Ribeira ou no sul do Pará. O delta do Mekong era aqui. Morreu-se e matou-se num conflito por procuração que, afinal, não era nosso e resultou em dupla decepção. Para nós, além da derrota física, o posterior desmoronamento do sonho socialista. Para eles a frustração do Brasil Potência, do Brasil Grande, ninguém-segura, ame-o-ou-deixe-o, oba-oba, reduzido a essa medíocre subalternidade aos sabor dos ventos globalizantes. Restou a uns e outros um prêmio (seria injusto dizer de consolação) que, a partida, a poucos entusiasmava verdadeiramente, mas com o tempo, de alguma maneira, quase todos aprendemos a valorar: essa democracia (altamente imperfeita mas real) que hoje temos.

Nos anos de chumbo tive a tríplice felicidade de sobreviver, não ter sido capturado e seviciado e não ter matado ninguém. A ventura de ser apenas um guerrilheiro mediano (medíocre?), tremendamente sortudo, com um (tardio) sentido da realidade, que me permitiu escapar (oito dias antes do aniquilamento do comando Juarez de Brito, da VPR) e me deixou um inventário de cicatrizes relativamente brando, que se resume à dor da perda de alguns queridos companheiros. Pude desovar, em algum momento do exílio, a carga de ódio que me deixaram aquelas tragédias. Dele me recordo, vagamente, como quem visita um pesadelo: revejo-me num decrépito e solitário studio, sem banheiro, em Paris, com uma revista O Cruzeiro, recém-chegada do Brasil, pelo correio, com fotos dos cadáveres de Lamarca e Zequinha e uma crônica terrível, cruel, desrespeitosa --muito bem escrita-- de David Nasser, glosando o feito d’armas da repressão e tripudiando sadicamente sobre os caídos. Naquela noite odiei-o intensamente. Decidi matá-lo. Fantasiei como seria: regressaria clandestino ao Brasil e o executaria com cinco tiros de pistola. Acho que nunca detestei alguém tanto quanto naquela noite insone, de setembro de 1971, quando me senti culpado de estar vivo. Sonhava “justiçar” David Nasser e também o delegado torturador Sérgio Fleury, que certos companheiros juravam ter visto em Paris, naqueles dias. Até hoje me lembro de todo aquele ódio dentro de mim. Recordo também como era ruim, tremendamente ruim, senti-lo.

O ódio, o rancor, o sentimento de vingança são --percebi na carne-- profundamente autodestrutivos. Impediam-me de aproveitar tudo de bom que a vida me oferecia naquele momento. Estava vivo, em Paris, com 20 anos, cercado de coisas belas, de pessoas novas, interessantes, provenientes de todo o mundo. Mil e uma experiências eram possíveis, centenas de atrações culturais e outras, a meu dispor, mas estava ali, aprisionado numa paranóica autoclandestinidade, vivendo, às margens do Sena, a continuidade da guerra perdida, do outro lado do oceano. Demorei ainda quase dois anos para emergir dessa masmorra mental que o DOI-CODI, que nunca conseguira me pegar, me infligia a distância. Depois entendi como pudera suicidar-se o Frei Tito, que não conseguia tirar da cabeça seu torturador, o delegado Fleury, ou Maria Auxiliadora, a Dôra, que se atirara debaixo de um trem, em Berlim, para fugir da Vila Militar.

Mil anos depois, em 1996, num pátio do Quartel Central do Corpo de Bombeiros, já secretário de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro, recebi uma medalha, uma homenagem pela minha colaboração com o destacamento de Bombeiros que combate incêndios florestais, no Parque Nacional da Tijuca. Solenidade de ritual militar, e eis que, para minha surpresa, surge o então secretário de Segurança do governo do estado do Rio de Janeiro, para me entregar a condecoração. O general Nilton Cerqueira se aproximou com a medalha na mão e prendeu-a na lapela do meu paletó branco de listinhas. Protocolarmente cumprimentou-me pelos serviços prestados aos soldados do fogo. Trocamos um seco aperto de mão. Não senti ódio, rancor ou raiva. Não senti simplesmente nada pelo homem que matou meu amigo Carlos Lamarca. Apenas um tremendo constrangimento, acredito, compartilhado. Lá estávamos nós, vinte e seis anos depois, ambos autoridades, num país diferente. Alguns anos antes, no Congresso, em Brasília, por uma razão que não recordo bem, vi-me no gabinete de outro ex-inimigo --este incomparavelmente mais light-- o então Senador Jarbas Passarinho, que fora ministro da educação da ditadura, na época final do movimento estudantil, nossa bête noire daqueles dias. Passarinho reclamou, delicadamente, de uma passagem deste livro. Conversamos longamente. Ele é um homem extremamente inteligente, afável, bom papo. Não havia jeito de ele caber no figurino de bandido na minha história de mocinho. Outro dia foi a vez de Zé Genoíno, deputado PT, ex-combatente da guerrilha do Araguaia, ser condecorado, pela Marinha. Certa ocasião conversei longamente com um oficial da FAB que foi colega de meu falecido tio, aviador. Há trinta anos teríamos trocado tiros, possivelmente; hoje concordamos em muita coisa: a ecologia, a necessidade de ética na vida pública, a urgência de realizar o papel singular do Brasil no mundo, a justiça social, os estragos do cassino global. Após breve escaramuça, evitamos cuidadosamente qualquer menção aos anos de chumbo, quando negávamos um ao outro a elementar condição de brasileiro. Se adentrássemos aquele terreno, imediatamente tenderíamos a pular para dentro das nossas respectivas velhas trincheiras. E quem ganharia com isso?

Uma vez fui duramente recriminado por uma pessoa aparentemente ligada a grupos de direitos humanos, dedicados a manter viva a memória dos crimes da repressão naquela época. Como diabos poderia eu, Alfredo Sirkis, autor de Os Carbonários, ser secretário de Meio Ambiente de uma Prefeitura que tinha como responsável pela Guarda Municipal um ex-membro de uma equipe da PM que, na época, operava junto com o Exército na luta anti-guerrilha? Foi inútil tentar lhe explicar que eu tinha informações que me davam uma razoável presunção (embora não certeza absoluta) de que aquele oficial participara de operações de rua e combates mas não de interrogatórios e, de que, como tal, fora apenas um combatente do outro lado. E, afinal, ora bolas, o que quer que tivesse sido, não havia razão para eu desistir de meus projetos de reflorestamento comunitário, saneamento, combate à poluição e às agressões ambientais, construção de ciclovias e outras coisas boas para a Cidade, para “renunciar e denunciar”, como me cobrava. Inútil. Senti naquela pessoa, jovem, da esquerda sectária, uma truculência psicológica e vibrações negativas que me fizeram tomar, depois, um banho de sal grosso. Não cheguei à crueldade de lhe narrar algo que vários companheiros que haviam feito treinamento em Cuba relutantemente me haviam relatado. A certa altura do adestramento, ao falar de coleta de informações junto a eventuais prisioneiros, o instrutor, apelidado Comandante Cubanito, se fazia ao mesmo tempo de vago e enfático: El prisonero tiene que hablar... pues tiene que hablar ! Nenhum deles dera muitas asas ao assunto, mas o sentido da afirmação era inequívoco. Tinham sentido claramente que, em caso de necessidade, ele era perfeitamente capaz de pendurar um prisioneiro no pau-de-arara, em defesa da revolução.

A tortura é algo abjeto. Degrada a quem a pratica. Provoca nojo e revolta a qualquer pessoa normal. E, no entanto, boa parte dos exércitos consideram-na arma de guerra. Em Israel está virtualmente legalizada e oficializada pela Suprema Corte, que autoriza o que denomina, eufemisticamente, “pressão física moderada”, e sabe-se que o Shin Beth, o serviço de segurança interior, tortura freqüentemente prisioneiros palestinos. Por outro lado, a Anistia Internacional denuncia que a Autoridade Palestina, por sua vez, também sevicia muitos de seus próprios presos. Certa vez, em Portugal, um oficial aviador uruguaio, exilado, contou-me como alguns de seus colegas de academia militar, segundo ele previamente “boa pessoas”, se viram envolvidos no combate contra os Tupamaros. Um belo dia lhe exibiram, num hangar, com toda a naturalidade do mundo e até uma ponta de orgulho, la picana, o telefone de campanha usado para dar choques elétricos nos testículos dos presos. Poucos dias depois ele --secretamente partidário do general Liber Seregni, líder do Frente Amplio-- desertou. Quantos tiveram essa coragem ? Na sua opinião, em pelo menos boa parte dos casos a transformação de uma pessoa normal em torturador se relacionava menos com uma monstruosidade de caráter --embora essa também encontradiça-- do que com uma dinâmica psicossocial, com uma cultura na qual a humanidade do inimigo passa a ser pura e simplesmente negada e o dever de obter a informação se sobrepõe a qualquer outra consideração. A velha história da banalidade do mal... Uma pergunta que sempre me perseguiu --perdoem-me, companheiros, mas o subconsciente é impertinente-- é o que teria acontecido se tivéssemos vencido. Em que pesem os crimes do camarada Stalin, os sangrentos caprichos e as catastróficas experiências de Mao Zedong, o genocídio de Pol Pot, de fato, na história do Brasil, foi a direita, e apenas a direita, quem ao longo da história suprimiu liberdades e pisoteou direitos humanos. Talvez beneficiada pela sua não menos histórica inapetência para o poder, a esquerda não teve, para sua própria felicidade, a chance de eventualmente vi a ser liberticida. Fica no ar a dúvida.

Apesar dos anos que passaram e do quadro político totalmente diferente, não se pode esquecer tudo quanto sucedeu na rua Barão de Mesquita, na rua Tutóia, na Base Aérea do Galeão, no DOPS de São Paulo ou na “casa da morte”, em Petrópolis. As gerações futuras devem conhecê-lo, pois isso poderá, eventualmente, contribuir para evitar novos surtos autoritários numa história humana que não é linear, mas se move em ciclos. Não se pode, porém, fazer dessa memória um perene abscesso de fixação na relação com as instituições militares, inclusive ampliando o escopo da denúncia para oficiais que não participaram de interrogatórios. Há, efetivamente, uma razão de Estado que indica que, se não podemos nem devemos permitir o esquecimento, também não devemos nem podemos fazer que aqueles fatos, dos quais participou apenas uma ínfima minoria dos quadros que hoje compõe o quadro de ativa das nossas Forças Armadas (nossas, sim), se transformem num foco permanente de tensões, conflitos e reflexos regressivos. A absorção pelo seu esprit de corps dessa consciência é algo sumamente problemático, que precisa ser tratado com habilidade e sobriedade. Quanto mais o meio militar estiver mesclado ao civil, em busca de soluções para o país, mais forte a democracia. Quanto mais ele se sentir objeto de permanente estigma e se fechar, isolado, mas problemas haverá no horizonte. Encontrar o ponto de equilíbrio é difícil mas ao mesmo tempo fundamental, sobretudo num momento em que o Brasil precisa de grande colaboração militar diante de gigantescos problemas ambientais, como o da Amazônia e o da manutenção do monopólio do Estado brasileiro sobre o material bélico, que, nas mãos de traficantes, ameaça a vida da população e o controle do Estado de direito sobre o conjunto do território.

Se a tortura por razões políticas foi algo que se aconteceu num período de doze, treze anos, sob o regime militar, depois de ter acontecido, duas décadas antes, no Estado Novo, de Getúlio Vargas, atingindo também pessoas de classe média e boas famílias, ela já existira antes desses períodos, e continuou existindo depois, em milhares de obscuras e fétidas delegacias de roubos e furtos e outras, onde sempre as mesmas técnicas são aplicadas por policiais preguiçosos e despreparados contra suspeitos, em geral pobres e negros, culpados ou inocentes, de uma gama de delitos comuns. Sair dessa situação e conseguir historicamente que ela vá minguando até sumir, como resquício de uma maldita pré-história, é algo que requer um “choque de civilização”.

Garantir que nunca mais haverá presos políticos e torturas em quartéis depende da consolidação da democracia, de instituições sólidas e de regras democráticas incorporadas pelo conjunto da sociedade. Para que nunca mais haja guerra entre brasileiros, quer em média escala, como em 30 ou 32, quer em “baixa intensidade” --mas nem por isso menos cruenta-- como nos anos de chumbo do final dos 60, início dos 70. A guerra civil, o confronto fratricida engendra inevitavelmente violações dos direitos humanos, inclusive em dimensões muito maiores do que aqui. É só olhar para a ex-Iugoslávia no flanco da Europa. Dificilmente haverá um guerra civil “limpa”. Tortura nunca mais, ditadura nunca mais, mas também luta armada nunca mais. Nenhuma ilusão mais de que existem atalhos, de que se pode consertar o Brasil por outro caminho que não o do paciente, constante e persistente exercício da democracia e daquelas liberdades que no passado chegamos a desprezar como “burguesas”.

Se não me envergonho, tampouco posso me orgulhar, porque cometemos muitos erros. Pessoas inocentes também caíram vítimas da guerrilha. Balas perdidas, enganos trágicos, também alguns crimes. Um marinheiro inglês de 19 anos foi estupidamente metralhado num estapafúrdio e cretino ato de solidariedade ao IRA. Um oficial alemão, aluno da Escola Superior de Guerra, foi “justiçado”, por engano, confundido com um militar boliviano presumidamente envolvido na morte do Che Guevara. Houve o caso notório de Márcio Toledo, executado por seus próprios companheiros, acometidos de surto paranóico-stalinista. E aquelas dezenas de soldados, policiais, suboficiais e oficiais, combatentes do outro lado, caídos em confronto, na porta de bancos, na escolta de embaixadores, em escaramuças de rua? Guerra é guerra, mas como não deixar, hoje, de lamentar todas essas vidas perdidas, de pensar, também, nas famílias deles. Os próprios sequestros de embaixadores, conquanto permitiram arrancar companheiros das torturas e, em alguns casos, salvar-lhes a vida, tiveram o aspecto problemático de usar pessoas inocentes como reféns. Quase trinta anos depois tudo é infinitamente mais complicado do que o maniqueísmo, simplificador e confortável. Por tudo isso se pode dizer que a anistia de 1971, da forma “recíproca” como se deu, conteve certa sensatez que transcende os as manobras táticas do então ministro da Justiça, Petrônio Portela, para fazê-la ser engolida pela chamada “linha dura” militar. Aquela anistia, nivelando a “subversão” aos chamados “crimes conexos”, foi injusta, pois foram atos muito diferentes, porém acabou sendo sábia. Em história isso acontece.

Mas a história, ela própria, acontece duas vezes. Uma no instantâneo eclodir dos fatos. Outra nas obras literárias, históricas, biográficas, memorialísticas e, hoje, no audiovisual: na TV, no cinema, em CD-ROM. Se na primeira perdemos, fragorosamente, na segunda não nos saímos de todo mal. Não chegarei a atribuir a Fernando Gabeira, a Álvaro Caldas, a Alex Polari, a mim próprio e a diversos outros autores de depoimentos esse condão de fazer com que a imagem de nossa geração rebelde, seja no Brasil melhor do que é hoje na Argentina, por exemplo, a dos Montoneros ou do ERP. Ali não só houve trinta vezes mais vítimas como, por parte da guerrilha, a responsabilidade de ter dado grande contribuição para torpedear a tentativa de democratização, ocorrida em 19 73, com as eleições livres de Héctor Cámpora e Juan Domingo Perón. A guerrilha continuou suas ações. No caso dos Montoneros --cuja palavra de ordem era “con las urnas al gobierno, com las armas al poder”-- uma sangrenta vendetta com a direita peronista e os sindicalistas da CGT oficial. No caso dos trotsko-guevaristas, comandados por Mário Roberto Santucho, ataques a quartéis do exército argentino. No Brasil a guerrilha nunca se confrontou com um governo livremente eleito ou num período de vigência das liberdades públicas. A luta armada se deu num período de repressão e cerceamento das liberdades produzido pelo golpe de estado de 64 contra um governo constitucional, seguido da supressão das eleições presidenciais previstas para o ano seguinte. Em todo caso, algum mérito por uma imagem histórica, razoavelmente simpática, coube aos nossos livros, ao menos aqueles lançados no período pós-anistia, por conterem depoimentos humanos, até certo ponto autocríticos, despojados de ideologismos, arrogância, autoglorificação ou rancor.

Nesse processo coube a Fernando Gabeira o papel inequívoco de “ boi de piranha”, que ele desempenhou com graciosa irreverência, demarcando um espaço que, quase duas décadas mais tarde, se ampliou com a transformação de sua obra O Que Isso Companheiro, em filme. Gabeira atraiu forte carga de ressentimento por parte de alguns de seus antigos companheiros. Essa mágoa é humana, compreensível, mas caberia melhor no divã do analista do que nas aspas rancorosas de matérias venenosas daquele estilo jornalístico que os americanos chamam de caracter assassination e que acabaram, de tanto repetidas, badaladas, consagrando algumas versões falsas que, de tanto repetidas, se transformaram em realidade virtual. Por exemplo: um leitor atento de O Que É Isso Companheiro descobrirá que a famosa passagem em que Gabeira supostamente assume, indevidamente, a autoria do famoso manifesto do seqüestro do embaixador norte-americano simplesmente não existe no livro. E que, ao contrário do tantas vezes publicado, ele não se atribui papel maior do que aquele, efetivamente secundário, que teve na operação. No entanto, na vida posterior, coube a ele e não a outros --alguns igualmente talentosos-- escrever um livro que caiu no gosto do público, num momento especial, com uma leveza de tom e um estilo que o consagraram.

Gabeira humanizou a experiência, desconstruiu a figura mitológica do guerrilheiro heróico e encarnou um símbolo de exilado que voltava sem ódios para uma nova fase, com novas idéias na bagagem. Também serviu de talismã para o essencial das folclorizações, simplificações e afabulações de certos segmentos da mídia. Chegou a estimulá-las com aquele seu dom provocador, que gosto de apreciar a meia distância. Isso deve ter efetivamente correspondido a uma demanda daquela sociedade, em transição, ansiosa por pacificação, descrispação das tensões e mudança pacífica, naquele ocaso da ditadura militar que foi o governo Figueiredo. Mas essa demanda também produziu seus próprios mitos. A começar pela famosa tanga de crochê. O recém-retornado quis ir a praia, o que não é do seu costume --Gabeira na praia é uma raridade-- não tinha calção e envergou uma peça do biquíni de sua prima e anfitriã dos primeiros dias de volta, a jornalista Leda Nagle. A famosa foto, no posto 9, virou símbolo maior do seu suposto bi ou homossexualismo. O megaescândalo da anistia: o guerrilheiro heróico virou gay e saiu por aí numa tanga de crochê cor-de-rosa! Seu então editor, o Ziraldo, ficou preocupadíssimo, inconformado. Mas para quem conhece a figura de longa data --no meu caso há uns bons 26 anos-- toda essa história não tinha pé nem cabeça. Ninguém nunca ouviu falar de um caso concreto que corroborasse essa revelação. Se ele teve alguma “experiência” desse tipo nenhum de seus amigos jamais soube e nunca tive o mau gosto de perguntar, até porque o considero de foro íntimo e perfeitamente irrelevante. Entre amigos, na época, comentávamos, maliciosamente, que toda aquela história de se dizer bissexual era uma forma de aguçar o interesse feminino (evidentemente usávamos expressões mais cáusticas e diretas). Naquele início dos anos 80, ser bissexual dava status e um seguro IBOPE feminino. Certa feita, em Paris, uma moça me interrogou a respeito. Decepcionada com o fato de eu nunca ter tido uma relação com outro homem, perguntou-me por quê. Expliquei que gostava imensamente das mulheres --sempre penso que Deus estava particularmente inspirado quando as criou-- e que não tinha a menor atração física pelo corpo masculino. Ela me olhou com desprezo e sentenciou, implacável: “Puxa, como você é reprimido!” Houve uma época, antes do aparecimento da AIDS, em que o “politicamente correto” era ser bi. Eu não achava nenhuma graça e tinha quase de pedir desculpas por tanto “machismo”, tamanha caretice. Um amigo nosso, já falecido, que apelidávamos Tocha, este efetivamente bi e, com o passar do tempo, homo, revoltava-se contra o mito e costumava, em festas de ex-exilados, depois do terceiro copo de uísque, proclamar em altos brados: “ É tudo uma farsa! Eu é que dou o cu e o Gabeira leva a fama!” Já o próprio nunca se preocupou em desmentir, pois para ele nada havia de desabonador que precisasse ser desmentido. E se fosse? E daí? E se não fosse, não poderia um dia vir a ser? Manteve essa atitude perfeitamente zen mesmo no dia em que, numa enorme assembléia petista, em 1989, quando se discutia da possibilidade de ele ser candidato a vice-presidente na chapa de Lula, um líder metalúrgico, de voz gutural e patética, proclamou aos quatro ventos que apoiava sua indicação mesmo sendo ele um homossexual. A coisa foi dita com tamanha grossura –mais de tom do que de palavra-- que deixou a todos nós hiperconstrangidos. Menos ao próprio Gabeira, que apenas esboçou um sorriso entre o irônico e o divertido, do tipo “Que tolice se preocupar com isso”. E foi vetado como vice.



Os Carbonários saiu uns seis meses depois do livro de Gabeira. Foi bestseller durante 32 semanas e, antes desta nova, teve 13 edições pela Global e duas pelo Círculo do Livro. Sem falsa modéstia, tendo lido quase todos os livros sobre o assunto, pretendo que seja a melhor história dos anos de chumbo. Não digo melhor texto, mas a melhor narrativa da aventura da nossa geração. Tive alguns problemas com Os Carbonários mas comparativamente pequenos. Não associei meu livro a nenhum choque comportamental. Na época, como afirmo no prefácio de 1980, queria ser apenas um contador de histórias. Por outro lado, ao contrário do que sucedeu com os envolvidos no episódio Elbrick, todos vivos, com exceção de Virgílio Gomes da Silva, dos casos von Holleben e Bucher, sou um dos escassos sobreviventes. Mas do nosso grupo, houve mais dois que escreveram suas memórias: Alex Polari (Em Busca do Tesouro) e Herbert Daniel (Passagem Para o Próximo Sonho). O segundo ficou realmente chateado com algumas referências na parte final, cuja veracidade nunca contestou. Eu, por outro lado, não poderia tê-las omitido, pois tinham importância absolutamente crucial para o desenrolar da história.

Que destino o de Hebert Estáquio de Carvalho, nosso Daniel! Em dezenas de ocasiões esteve a um triz da prisão, escapando quase miraculosamente. Tinha freqüentes problemas de saúde. No final de 70, no auge da clandestinidade, foi desenganado por um falso diagnóstico de leucemia, que recebeu com resignado fatalismo. Foi, literalmente, o último dos moicanos da VPR. Ao ser completamente aniquilada a organização, no final de 71, no Rio, e em 72, no Nordeste, pela repressão, com prestimosa ajuda do cabo Anselmo, foi o único que sobrou. Perdeu completamente o contato com quaisquer estruturas clandestinas de outras organizações. Ficou em contato somente com um simpatizante, o artista plástico Cláudio Mesquita ( não há referencias a ele no livro, pois na época não cheguei a conhecê-lo. O Cláudio que menciono, algumas vezes, é um dos codinomes de Lamarca) Daniel e Cláudio Mesquita passaram a morar juntos; viveram em diversas pequenas localidades do interior de Minas Gerais, afastados de qualquer contato político. Reimplantaram-se socialmente assumindo novas identidades e uma variada gama de ofícios. Cláudio trabalhou como cabelereiro. Nessa época Daniel assumiu sua homossexualidade, que, no período da militância, sufocara, mas seu amor com Cláudio só se realizaria muitos anos depois, em Portugal. Apesar de ser um dos homens mais procurados do país, Daniel fez contato com a família e chegou a visitar a casa dos pais, em Belo Horizonte, sem que ninguém o reconhecesse. Encontrar o desaparecido companheiro Daniel foi minha obsessão, durante muito tempo, no exílio. Em 1974, quando morava em Buenos Aires, como correspondente do Libération, consegui fazer contato. Num centro espírita uma amiga nossa foi informada de que ele estava vivo. Meu amigo João Belisário de Souza, o Jonjoca, conseguiu estabelecer o contato com sua família. Com apoio de Amílcar Santucho, do ERP (Ejército Revolucionário del Pueblo), que nos forneceu os documentos falsos, Jonjoca entrou clandestinamente no Brasil, foi até Minas e fez contato com eles, deixando-lhes dois passaportes “frios”, equatorianos. Eles saíram do país e nos reencontramos, no final do ano, em Paris, na casa de Ângelo Pezzuti. Em 75, Daniel e Cláudio foram morar em Portugal, onde eu também residia. Com a anistia Cláudio regressou, mas Daniel foi um dos pouquíssimos brasileiros a não ser incluídos na anistia de Figueiredo, que no meu caso --estava condenado duas vezes a prisão perpétua e a trinta anos na terceira encarnação, pelos tribunais militares-- se deu, de fato, por artifícios jurídicos de prescrição de pena. Entrei raspando a trave, beneficiado pela minha idade de menor de 21, na época dos fatos. Daniel, no entanto, só pôde regressar dois anos depois. Permaneceu em Paris e ficou sendo conhecido como o “ultimo exilado”, o que inspirou até um personagem do Jô Soares, o Sebá.

Enquanto esperava a solução do seu caso, Daniel lia e escrevia muito e trabalhava numa sauna gay. Finalmente de regresso, em 81, Daniel lançou alguns livros que preparara em Paris e escreveu vários outros, alguns autênticas preciosidades, mas que nunca chegaram a um grande público. Tinha um texto fantástico, muito elaborado, o melhor de todos nós, mas fazia pouco caso da estrutura narrativa e nenhuma concessão à simplicidade. Inseriu-se nos debates sobre a questão homossexual e sobre temas de direitos humanos e ambientais. Foi um dos fundadores do PV e, em 86, concorreu a deputado estadual pelo Rio de Janeiro; não foi eleito, apesar de expressiva votação. Com o surgimento da epidemia de AIDS Daniel passou a dedicar-lhe enorme atenção transformando-se em uma referência nacional e internacional sobre as questões de saúde pública, culturais e de direitos humanos envolvendo-a. Em 89 ele próprio descobriu estar com a doença, depois de pegar uma pneumonia. Nessa época foi lançado, durante um período, como anticandidato à Presidência da República pelo PV, como forma de combater o preconceito. Assumiu abertamente sua condição de aidético num momento em que poucos tinham coragem de fazê-lo e redobrou sua combatividade e garra de viver. Resistiu quatro anos durante os quais lutou, lutou, lutou, incessantemente, viajando pelo mundo, dando palestras, escrevendo artigos, negociando articulações internacionais. Herbert Daniel mudou a história da AIDS no Brasil. A partir dele os aidéticos e o soropositivos saíram do gueto, posicionaram-se à luz do dia. Em 93 aquele que havia escapado de dezenas de situações críticas, na época da luta armada, que fora o último moicano da VPR, o derradeiro a sair para o exílio e a regressar ao país, sucumbiu, em casa, em Copacabana, ao lado do seu amado Cláudio Alves Mesquita. Numa subsequente crueldade do destino este artista, ainda não descoberto, também se foi, no ano seguinte, com 45 anos. Não do vírus, mas do imenso coração, partido.

Vi Herbert Daniel pela última vez a duas semanas do desenlace, que se deu quando eu estava em Amsterdã, visitando as ciclovias, em viagem oficial. Durante sua doença tivemos conversas maravilhosas, profundas, livramo-nos das questiúnculas, rivalidades, vaidades que nos tinham separado em diferentes momentos. Eu constantemente lhe dizia --dizia me-- que ele ia resistir, que em poucos anos iriam surgir novos tratamentos, que o negócio era durar até lá, e ninguém mais talhado para isso do que um especialista em sobrevivência como ele. Não deu tempo. Três anos antes do surgimento dos inibidores da protease e dos coctéis, percebi, pelo telefone, que sua voz ficava trêmula e sumia, suas fases “más” iam se prolongando. Vi-o aquela última vez. Segundo Cláudio, tinha poucos momentos de lucidez, mas cheguei durante um deles. Seu cabelo ficara totalmente branco; em poucas semanas transformara-se num ancião precoce. Fumava muito. Deitado naquela cama, trêmulo, parecia um peixe fora d’água, ofegante. Mas seu sorriso era doce e seu olhar cheio de serenidade e amor por tudo, por todos. Lembramo-nos das coisas que tínhamos feito juntos. Prometi voltar uns dias depois. Viajei. Naquele dia ambos sentíamos que era a despedida.



Decidi recentemente relançar Os Carbonários em nova edição, comemorativa dos trinta anos do rebelde ano de 1968. As alterações no texto foram exclusivamente de forma. No período 78-80, quando o escrevi, eu estava influenciado pelo estilo Pasquim e usei abundantes gírias vigentes na época, sem me dar conta do quanto eram perecíveis. Lembro-me que, em certa ocasião, Otto Lara Resende se propôs a me ajudar a colocá-lo no chamado português escorreito, o que na época não me pareceu indispensável. Com o passar do tempo me convenci de que tinha razão e de que algumas expressões coloquiais precisavam ser revistas, pois tinham caído em desuso, alguns parágrafos ajuntados, rompendo com uma busca quase obsessiva que tinha, na época, de chegar a um máximo possível de despojamento e simplicidade, numa escrita quase oral. Além dessa troca de algumas expressões, as notas explicativas e esse novo prefácio, são as únicas modificações. Decidi identificar melhor alguns dos personagens, fornecer seus dados biográficos posteriores, com ajuda de Teresa Ventura. Trata-se em geral das pessoas que de alguma forma se tornaram públicas e das já falecidas. Ficaram de fora algumas que não consegui localizar, as que, por algum razão, manifestaram desejo de não figurarem nessas notas e algumas outras que preferi preservar por questão de cavalheirismo ou por outras razões pessoais. Na releitura, dezoito anos depois, descobri, no Pre(pos)fácio e no texto do livro afirmações políticas ou observações críticas, sobre pessoas ou fatos, com as quais hoje já não concordaria. Decidi mantê-las integralmente, mas tomei a liberdade de criticá-las, em algumas notas.

Há alguns anos cedi à Rede Globo os direitos de uso de alguns episódios de Os Carbonários que junto com o livro de Zuenir sobre 68 serviu de fonte para a série Anos Rebeldes, de Gilberto Braga. Vi alguns capítulos com interesse, mas sem me envolver. O que me emocionou mesmo foi a abertura, com Alegria. Alegria. Já me acostumei a assistir todos os filmes e séries sobre aquela época com os olhos de simples espectador de obras de ficção, sem a angústia de quem espera ver na tela ou telinha sua própria vida. Isso me é salutar e me ajuda a respeitar a criação artística dos outros, sem aquele sentimento de que estão me despossuindo de meu passado, deturpando-o, que alguns experimentaram diante do O Que é Isso, Companheiro? de Bruno Barreto. Na verdade é muito difícil (mas não impossível) recriar o clima psicológico, o astral, a paixão daqueles anos nos veículos audiovisuais. Acho que o filme que mais se aproximou disso foi um dos menos diretamente “políticos”, o Nunca Fomos Tão Felizes, de Murilo Salles, que conta a história da relação de um pai guerrilheiro com um filho “alienado”. Muitas obras houve, e pelo fascínio –para mim meio incompreensível-- que esse período continua a exercer, muitas ainda haverá. Depois surgirão os livrões dos historiadores, bem documentados, objetivos, pesquisados com base em toda a documentação que hoje já está acessível.

Todos esse anos, em variadas ocasiões, muitos leitores de Os Carbonários me perguntaram se tudo é mesmo verdade. Se não haveria nada de ficção. Em que pesem certas peças que eventualmente a memória pode nos pregar, é, sim, tudo verdade. Não é, no entanto, toda a verdade. Contei aquilo que de mais relevante e interessante eu lembrava na época que escrevi. Omiti, propositadamente, ou abordei de forma sumária e cautelosa uma série de informações e discussões sobre a espinhosa e dolorosa questão do comportamento de pessoas na prisão e na tortura. Optei por esse caminho, que continuo a achar absolutamente correto e ético, por duas razões. Primeiro, tive a sorte e a felicidade de ter escapado dessa experiência, que tanto marcou muitos de nós; portanto, não me senti no direito de julgar quem por ela passara. Excetuei disso uma única pessoa, no livro identificada apenas por seu codinome, cujo grau de colaboração com a repressão foi muito além da média, quem de certa forma hostilizei. Por razões que explico numa das notas, hoje acho que posso ter sido injusto. A segunda razão é a mais importante: remexer nisso tudo significa de certa maneira dar continuidade ao sofrimento e ao processo de destruição humana infligidos pelos torturadores às suas vítimas, coisa que alguns companheiros esqueceram quando, anos a fio, estigmatizaram outros, por espisódios relacionados a essas situações terríveis e até hoje utilizam esse tipo de informação(verdadeira ou falsa) em retaliações políticas. Também não me preocupei em aprofundar muito as discussões políticas, ideológicas, as polêmicas e as concepções variadas no seio daquele punhado de organizações clandestinas –o que valeu ao livro a crítica de ser meio apolítico-- porque achei que isso seria insuportavelmente enfadonho. Aliás, mesmo que quisesse, não seria capaz de reproduzir, a não ser com apoio de documentos, de que não dispunha, os meandros muitas vezes perfeitamente delirantes, surrealistas e até ridículos das nossas análises, epítetos e anátemas de então.

No mais, acredito ter feito um relato fiel aos fatos por mim vividos, naquele período, os quais continuei narrando depois, no meu livro sobre os primeiros anos de exílio, Roleta Chilena. Freqüentemente me interrogo sobre o porquê do aparente interesse e até mesmo fascínio que nossos anos de chumbo continuam exercendo sobre a mídia. Pessoalmente me dá certo enfado falar sobre “aquela época” e ocasionalmente tenho recusado conferências e entrevistas sobre esse assunto, embora acabe sempre, vez por outra, caindo nelas. Certamente não é, nem de longe, o assunto sobre o qual hoje aprecie palestrar. Prefiro mil vezes falar sobre ecologia, por exemplo. Por alguma razão a sociedade brasileira ainda não terminou de exorcizar a aventura da sua última geração de formação literária --as seguintes foram mais influenciadas pelo audiovisual-- que foi contemporânea de um maravilhoso momento de criação cultural e artística. Tenho certa tendência a considerar que, nós, jovens políticos radicais, fomos os “primos pobres” de uma efervescência cultural, artística e comportamental, cujo epicentro foi 68, a qual deixou marcas ainda hoje atuais, que mudaram o mundo muito mais profundamente que a luta política propriamente dita. A revolução sexual, com o advento da pílula, foi um marco definitivo, que nem a AIDS conseguiu fazer regredir. O Cinema Novo foi um dado primordial no cinema brasileiro. A geração de músicos e poetas que despontou naquele período: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa, Rita Lee e tantos outros reina até hoje, insuperada.

Recentemente li o livro de Caetano sobre o Tropicalismo (Verdade Tropical) e, através dele, revivi aquele período pelo seu lado mais sensível, afetivo, imaginário. Se os setores mais veteranos da esquerda, na época nossos dirigentes, tendiam a torcer o nariz para aquilo que lhes parecia alienação pequeno-burguesa, influência imperialista e fuga aos cânones do Realismo Socialista, para nós, os secundaristas da luta armada, recém-saídos da adolescência, o Tropicalismo foi e continua sendo divino-maravilhoso. Era preciso estar atento e forte, não tínhamos tempo de temer a morte, exatamente como cantavam Gil e Caetano. Vinte anos depois, a partir de minha amizade com Gil, pude perceber melhor toda a teia premonitória que nos juntava aos tropicalistas. Que unia o que eles criavam artisticamente não ao que éramos então, mas ao que estávamos destinados a ser, pelo menos alguns de nós. Explico melhor: na época nossa relação com eles era de platéia. Dificilmente poderia descrever em toda a sua riqueza afetiva e sensibilidade o papel que aquelas canções tiveram na minha vida de então. Fiz amor pela primeira vez, com uma mulher pela qual estivava apaixonado, ao som de “quero ver Irene dar sua risada”. Quantas vezes levantei minha moral para a luta com Soy Loco por Ti América ou Alegria, Alegria. Divino maravilhoso era um mantra para a peleja, atentos e fortes, fazendo atenção ao sangue sobre o chão. Nesse sentido tinham razão os militares, que os intuíam seus inimigos. Mas o fato é que eles, na época, já estavam muito além daquilo tudo. A arte tem essa fantástica capacidade de antecipar a história, e não tenho dúvidas que as raízes poéticas, afetivas, estéticas do que viemos a ser e a formular, politicamente, uma década mais tarde –as concepções verdes e alternativas-- já no final do exílio e no regresso, estavam no Tropicalismo. A visão holística, planetária, o gosto da mistura, mescla, o melting pot dos verdes teve ali suas sementes, que desabrocharam em mil flores, no país onde os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis. A viagem de 68, da vida para a história, ainda vai dar pano para mangas: todas juntas essas obras comporão nosso mosaico histórico, nossa geleia geral do, em muito breve, século passado. Já não sou, simplesmente, um contador de histórias, como pretendia no Pre(pos)fácio de 1980. Mas ainda tenho umas tantas para contar e recontar. Em reapresentação, nas livrarias, Os Carbonários. L’Armata Brancaleone, rides again.



Rio de Janeiro, 13 de abril de 1998


 
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